Leia agora a entrevista que o autor Sérgio Rodrigues concedeu ao jornal O Globo Online em 21 de março de 2009.
Se o romance pudesse ter um lide, seria "Prestes é o maior responsável pela morte de Elza"? Ou a responsabilidade é do Partido Comunista do Brasil, como está no subtítulo?
Acusar Prestes no subtítulo ajudaria o livro a vender, mas seria irresponsável. Há indícios fortíssimos em sua correspondência de que ele cobrou a execução da sentença de morte contra a Elza num momento em que o PCB, cheio de dúvidas, tentou voltar atrás. Mas Prestes nunca admitiu isso; os dirigentes do PCB, sim. Tudo isso, de certa forma, é notícia velha. O que o livro me parece ter de novo é a busca por entender o impacto que esse crime, mesmo esquecido, teve na história brasileira do século 20, na consolidação do governo Vargas e de um discurso anticomunista que seria dominante até o fim da ditadura de 1964.
O que te levou ao tema da insurreição de 1935?
O livro nasceu de uma encomenda da editora. A ideia deles era um volume de não-ficção. Entrei nisso como profissional, mas me apaixonei rapidamente pelo tema, e respondo sozinho pela decisão de transformar a história num romance.
Na pesquisa, o que descobriu de mais impressionante?
Os indícios de que a carta que Miranda, o amante de Elza, teria escrito a Filinto Müller, chefe de polícia e um dos cabeças da violenta repressão aos comunistas, era forjada. Sempre ouvi falar dessa carta como a prova definitiva de que Miranda tinha traído o Partido.
Você parece concordar com Sara Becker, a militante comunista que não duvidou de que a carta de Miranda para Filinto Müller é falsa...
Sim, acho que existem bons indícios nesse sentido, e os exponho no livro. Não creio que se possa provar uma coisa ou outra acima de qualquer dúvida a esta altura.
O encontro do comunista enviado para contatar Lampião é verdadeiro?
Não, aquele encontro é fictício. A base de verdade é que houve, de fato, tentativas de aproximação com os cangaceiros, que o PCB via então como revolucionários intuitivos, uma espécie de vanguarda desorganizada do campesinato.
Você concorda com a ideia que percorre o livro, a de que Getúlio não seria o mesmo sem o fracasso da revolta comunista?
Esta tese não é minha, mas concordo inteiramente com ela. Em 1935, às vésperas da Intentona, ninguém apostava que Getúlio fosse durar muito.
No fim dos anos 80 e início dos 90, quando jornalistas começaram a investigar a história do Brasil e a produzir livros, alguns historiadores chiaram. Você vai além: mistura ficção com história, e ainda comenta livros, interpretações e fatos. Não teme que haja outra grita, ainda maior?
Não me preocupo com isso. Nunca gostei de reserva de mercado em nenhuma área do conhecimento – acho muito saudável esse lado da não-especialização dos jornalistas. Quando se acredita, e eu acredito, na possibilidade de democratizar o saber, qualquer tentativa de cercear os discursos com base em títulos é autoritária e burra. Os historiadores que criticam o Eduardo Bueno por não ter diploma na área, por exemplo, não levam em conta o serviço que ele prestou à cultura brasileira como escritor talentoso para a divulgação da história do Brasil. Gostaria de ver mais historiadores escrevendo romances históricos.
A parte em que se analisa os fatos que cercam o crime teria a mão do Sérgio Rodrigues blogueiro-ensaísta?
O livro tem muito de ensaio jornalístico, sem dúvida. Mas não vejo nenhuma participação do blogueiro. Cada capítulo é mais longo que um mês inteiro de blog.
Os três livros que você publicou são bem diferentes entre si. Isso é proposital?
De propósito no sentido de seguir um plano, não. Não sou tão organizado. Mas gosto de pensar em cada livro como um universo fechado. Admiro cineastas que fazem um filme inteiramente diferente a cada vez, como o Kubrick. Mesmo assim, acho que os meus três livros de ficção têm mais em comum do que parece à primeira vista.
Como você avalia a sua ficção? Vê algum ponto de contato com a obra de autores contemporâneos, daqui e de fora?
Não sei dizer, e acho que não sou a pessoa indicada para fazer esse tipo de avaliação. Só adianto que este livro tem alguns pontos de contato com um ótimo romance sobre a Guerra Civil Espanhola – até o período histórico é semelhante – chamado Soldados de Salamina, do Javier Cercas. Li este livro na fase de pesquisa e ele me ajudou bastante. Principalmente a ter coragem de misturar pesquisa e ficção com mais ousadia do que se costuma ter num romance histórico convencional.
Fonte: JB
